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Tomie Ohtake um dos mais importantes nomes da arte abstrata no Brasil

Tomie Ohtake

A longevidade de Tomie Ohtake está para a arte brasileira como a de Oscar Niemeyer para a arquitetura. Ambos tiveram o privilégio de alcançarem o centenário de vida reconhecidos por suas obras e celebrados por suas trajetórias – Tomie morreu nesta quinta-feira, aos 101 anos; Niemeyer se despediu em 2012, aos 104.

Um dos mais importantes nomes da arte moderna brasileira, Tomie foi internada em estado grave no Hospital Sírio-Libanês após sofrer uma parada cardíaca por complicações de uma pneumonia. Em outubro, ela havia exposto no Rio de Janeiro uma nova série de pinturas. Foi uma demonstração de que não só estava ativa, mas lúcida – embora presa a uma carreira de rodas.

Em 2012, uma Tomie já cadeirante, aos 98 anos, veio a Porto Alegre especialmente para conferir a exposição que a Fundação Iberê Camargo dedicava a ela. Acompanhada pelos filhos e netos, a artista viu reunida, pela primeira vez, a série de pinturas que realizou com os olhos vendados entre 1959 e 1962. Sua vinda não estava confirmada. A decisão foi tomada por ela mesma ao intuir que não poderia deixar de aproveitar a oportunidade de rever suas antigas telas, que hoje pertencem a colecionadores. Durante sua visita, com a voz comprometida pela idade avançada, disse ao pé do ouvido do repórter:

Pinturas Cegas (título da série) tem um componente intuitivo e de gesto. Porém, em meus trabalhos de outras fases, a razão ocupa uma posição destacada.

Vi aí a oportunidade de continuar a conversa, então aproveitei para perguntar a ela sobre o valor atual da pintura abstrata pela qual se tornou tão conhecida. A resposta foi econômica, mas precisa:

– A abstração é uma presença em muitas diferentes correntes de arte. O seu vigor continua a existir, de acordo com a época.

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Nascida no Japão, Tomie chegou ao Brasil em 1936, aos 23 anos. No documentário Tomie, dirigido por Tizuka Yamazaki e lançado em dezembro, a artista conta o motivo que a levou a deixar seu país e imigrar para o Brasil, seguindo o caminho antes trilhado por um irmão: “Mulher com minha idade tinha de casar”. No filme, também lembra da chegada, quando desceu do navio no porto de Santos e sentiu tudo com “gosto de amarelo”.

A trajetória que Tomie percorreria nas décadas seguintes faria dela uma testemunha dos acontecimentos da história da arte brasileira pós-Semana de Arte Moderna de 1922. Trabalhou com gravura e escultura, mas foi na pintura que desenvolveu a força de sua produção. Nos anos 1950, teve um momento de figuração, mas logo se filiaria à pintura abstrata que passava a ser praticada por uma série de artistas de origem nipônica, como o próprio Manabu Mabe (1924 – 1997). Tomie partiu então para um abstracionismo mais gestual, marcado por grandes telas que exploram a textura, a redução cromática e a espacialidade, uma prática que chegou a ser relacionada ao expressionista abstrato Mark Rothko (1903 – 1970).

Além de usar meios plásticos e pictóricos como instrumentos de experiência estética, a artista se inspirava também em questões que envolvem a cultura japonesa e a arte oriental, especialmente a noção de tempo e o zen-budismo.

– Tomie tem a noção do tempo que passa, em um mundo que tentamos apreender, mas nos escapa. E faz uma reflexão a partir do próprio isolamento e da subjetividade – disse o curador Paulo Herkenhoff a ZH em 2012, a propósito da exposição na Fundação Iberê Camargo

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