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Redes sociais: o que sempre compartilhamos dentro e fora do mundo virtual

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Por Lilian Daltro Michelan, psicoterapeuta

As interações sociais sempre ocuparam grande parte das relações humanas. Bate-papos entre amigos, encontros familiares, reuniões de trabalho, conversas de boteco, grupos de estudo, campanhas solidárias etc., são alguns exemplos desse fenômeno.

Com o avanço tecnológico e a propagação de informações através da internet, as relações sociais migraram para esse novo ambiente virtual, e junto com elas os antigos anseios humanos por aprovação. Em uma cultura cada vez mais imediatista e competitiva, em que as pessoas passam a maior parte do seu tempo sendo pressionadas por desempenho e ameaçadas de serem substituídas constantemente; em que têm de dar conta de inúmeras tarefas como educar bem seus filhos, manter seu corpo em forma, se vestir conforme a moda, alcançar o peso ideal, e ainda manter um desempenho excepcional em tudo o que fazem, o elogio e o reconhecimento social ganharam ainda mais relevância. A aprovação imediata que as redes sociais oferecem através das “curtidas” e dos tantos “seguidores” que cada perfil consegue angariar fizeram dela um curioso meio de validação do sucesso pessoal, uma maneira de se sentir notado num contexto em que as pessoas raramente olham umas para as outras.

Um novo cenário de interações

Não é difícil perceber a solidão e a alienação como traços marcantes de nossa cultura. Basta questionar: Quanto tempo as pessoas dedicam ao que verdadeiramente dá sentido às suas vidas? Em que circunstâncias conseguem parar o fluxo de seus compromissos cotidianos pra dar atenção ao outro ou a si mesmas? Com que frequência conseguem ter uma boa conversa pessoalmente entre amigos, comunicar seus sentimentos e serem correspondidas afetivamente? É nesse cenário que as redes sociais têm ganhado força e expressividade. Não porque elas sejam suficientemente boas para suprir todas essas necessidades, mas porque remediam a sensação de solidão gerada pela rotina acelerada de tantos compromissos diários e pelo distanciamento pessoal imposto por esse novo estilo de vida. Se por um lado há queixas de que alguns se engajam demais no universo virtual, deixando de lado as relações presenciais, por outro, é indiscutível que os custos para se relacionar neste contexto são muito menores e, portanto, bastante atrativos. Leva-se bem menos tempo pra manter-se “conectado” a alguém através deste recurso do que se gastaria com um encontro presencial.

Além do mais, há a possibilidade de se manter contato com pessoas geograficamente muito distantes, a oportunidade de ser notado por suas habilidades e interesses e a chance de acompanhar em tempo quase real o que acontece na vida de seus conhecidos. Tudo isso enquanto se aguarda a vez de ser atendido numa fila, o semáforo abrir ou simplesmente um tempo ocioso passar. Como quem assiste a um noticiário, pode-se saber do que acontece “no mundo ao seu redor”, opinar abertamente sobre ele, ou ainda falar sobre si mesmo, colocando-se nesse mundo.

Nesse sentido, as redes sociais vêm se revelando uma importante via de expressão pessoal. Nunca na história foi tão fácil acompanhar a vida daqueles que nos interessam como com o advento dessa tecnologia. Informações sobre o que as pessoas fazem, aonde vão, e o que elas “curtem” estão acessíveis a todos, pelo menos a todos que estão “adicionados” como amigos dentro desse universo. Trata-se de uma vitrine na qual está exposto, de forma mais acentuada, tudo o que já fazíamos no contexto real. Há quem tagarele qualquer coisa por atenção, aqueles que bisbilhotam a vida alheia, os que aproveitam as facilidades desse meio de comunicação pra trocarem conhecimento e informações úteis, quem auxilie através de campanhas, os que entram em discussões calorosas com o intuito de polemizar, outros que buscam atenção com suas falas melancólicas, quem esbanje frases de autoajuda, aqueles que se utilizam desse espaço para reencontrar amigos e manter algum contato nos breves intervalos que sua vida reserva para isso, e também os que criam perfis e postagens fantasiosos, com informações extremamente distorcidas – uma extensão no universo virtual das “conversas de pescador” do mundo real. Algumas diferenças entre o que acontece dentro e fora das redes sociais estão na oportunidade que cada um tem de selecionar com mais rigor o que postar, de pensar sobre aquilo que pretende escrever, e também de decidir quem entra e quem sai da sua vida – uma autonomia nem sempre possível na vida real. Sem dúvidas, trata-se de um recurso de comunicação que reflete a estrutura atual da nossa sociedade dinâmica e imediatista, com suas características positivas e negativas, que se bem manejadas podem gerar ótimos resultados. Por exemplo, para uma pessoa tímida as redes sociais são uma excelente oportunidade de aprender a se expor gradualmente até ganhar desinibição. Em outros casos, podem ser uma grande oportunidade para conhecer novos hobbies e fazer amizade com pessoas que compartilhem dos mesmos interesses, e – por que não? – uma chance de aprender a experimentar a vida por uma nova perspectiva, espelhando-se no exemplo de outras pessoas.

 

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Não se deixe levar

Como todo tipo de interação social, as redes sociais também podem gerar efeitos negativos. As postagens podem ser uma representação da vida real, mas, como toda representação, podem carregar algo de ficcional. Quem acompanha essas postagens pode perder de vista “os custos” de cada atividade e desenvolver uma ideia fantasiosa (muitas vezes invejosa) de que a vida do outro seja mais fácil que a sua, ou que as conquistas e os privilégios exibidos ali não tenham também demandado algum esforço ou não tenham um outro lado de dificuldade. Quando se observa a viagem de Ana a Paris, por exemplo, vê-se as fotos das belas paisagens, mas não se sabe nada sobre as dificuldades que ela enfrentou pra comprar as passagens, as horas gastas no aeroporto enquanto seu voo atrasava, suas economias anteriores, etc. Tal como em relações sociais superficiais, não se fica sabendo sobre todos os acontecimentos e deve-se tomar cuidado pra não cometer distorções por falta de dados. Outra ilusão frequentemente gerada pelo volume e dinamismo das informações postadas nas redes sociais é a impressão de que coisas boas só acontecem na vida dos outros. Num mesmo dia é possível ver os preparativos para o casamento de um, a promoção no emprego do outro, a casa nova de fulano, as viagens de beltrano… Isso ocorre porque só aparecem nas interações sociais virtuais aquilo que as pessoas selecionam para exibir de si mesmas; dificilmente alguém escreve: “hoje meu dia passou em branco”. De qualquer forma, aqui está uma boa oportunidade para reflexão: se você sente que sua vida está realmente sempre em branco e que sua sensação de vazio é uma constante, talvez as interações sociais (inclusive as virtuais) sirvam como um alerta de que você deve pensar mais em si mesmo e no que poderia lhe gerar felicidade (o que, por sua vez, não precisa ser semelhante ao que gera felicidade aos outros).

Um outro efeito – que tem seus prós e contras – das redes sociais é que nunca se obteve tanta aprovação social em tão pouco tempo e, muitas vezes, por tão pouco. É possível ter centenas de “curtidas” pelo nascimento de um filho, pela ascensão profissional tão batalhada, ou mesmo pela foto de um prato de comida, tirado no restaurante da esquina. Nesse sentido, pode-se dizer que, se por um lado a aprovação social pode servir como estímulo para as pessoas se dedicarem ao que gostam, por outro, o excesso de “curtidas” para todo tipo de informação pode acarretar uma banalização dessa aprovação, um achatamento do valor de algumas coisas que seriam, a priori, mais relevantes que outras. A consequência disso seria o surgimento de uma expectativa de se obter aplausos por coisas que, na prática, merecem bem menos reconhecimento que outras, ou seja, uma perda do referencial de quanto vale cada atitude ou acontecimento.

Ainda assim, não podemos negar que esse tipo de “bajulação” esperada por alguns independe das redes sociais. Não é de agora que algumas pessoas esperam por um reconhecimento que nunca fizeram por merecer. O que de fato define o comportamento de uma pessoa dentro e fora das conhecidas redes sociais é quem ela é e como ela se relaciona com sua vida. Se uma pessoa vive de aparências, por exemplo, isso não acontece apenas dentro das redes sociais. Como se pode notar, mais uma vez, não há nada de tão novo assim. Tanto no universo virtual como real, as relações são controladas pelas pessoas que as compõem. A rede apenas criou novas e mais intensas dinâmicas para esses processos.

Muitos são os mitos criados em cima das inovações. Como nas discussões sobre células tronco e outros avanços tecnológicos, há sempre aqueles mais conservadores, que oferecem resistência e se apegam aos modelos anteriores, e aqueles mais inovadores, que se lançam no impulso, correndo muitas vezes o risco de não medir com precisão as consequências de seus atos. O importante mesmo é encontrar o equilíbrio, receber o novo sem perder de vista sua essência, ter flexibilidade para acompanhar as transformações da nossa geração utilizando-as para nosso próprio bem.

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