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Marita de Dirceu

Por Fernanda Ubaid

FOTO 1: REVISTA VOGUE BRASIL – MAIO 2015 / GISELE 20 ANOS – SOUTIEN / Direção criativa: Giovanni Bianco | Foto: Bob Wolfenson | Stylist: Yasmine Sterea | Beleza: Daniel Hernandez | Produção de moda: Kaio Assunção e Daniela Mônaco

Uma peça extremamente feminina, que dá poder à mulher e permite experimentar aspectos únicos da feminilidade. Modela o corpo e a postura, dando evidência a quem o veste. Este é o papel do corset. Um item de moda presente no guarda roupas feminino e no imaginário masculino há séculos, mas que deveria ser mais usado. As mulheres conhecem a versatilidade do corset, mas muitas vezes abrem mão para priorizar o conforto.

Marita de Dirceu é estilista brasileira e uma das maiores especialistas em corseteria. Celebridades como Gisele Bundchen, Fernanda Tavares, Alessanda Ambrósio, Débora Bloch, Cléo Pires, Aline Moraes, Ana Hickmann, Luiza Brunet, Juliana Paes, Ana Cláuda Michels, Naomi Campbell e Rihanna já usaram suas peças. Seu trabalho é reconhecido internacionalmente e mostrado em capas de revistas e em editoriais de moda nas principais publicações como Vogue, ELLE, L’Officiel, Harper’s Bazar, Nova e Cláudia.

A estilista tem como formação acadêmica a engenharia civil. Mas a moda sempre fez parte da vida de Marita. Quando criança adorava se vestir com as roupas e sapatos da mãe. Na adolescência, na cidade mineira de Uberaba, trabalhou como modelo e era uma itgirl da cidade, uma inspiração e referência para outras jovens. Depois que terminou a faculdade na área de exatas percebeu que podia aliar as duas paixões: moda e engenharia. “O corset é a peça mais controversa da moda pelas suas estruturas e modelagens complexas. Ao longo dos últimos séculos vem formatando corpos e resguardando a feminilidade. O corset no passado foi o cirurgião plástico de todos os tempos e hoje é glamour e sedução. É uma paixão”, explica. 

Durante quase 50 anos, da segunda metade do século XIX até início do século XX, era moda ter uma cintura fina. A revolução industrial tem forte influência na popularização dos corsets, pois só os maquinários podiam fabricar grandes quantidades da peça e com variações como a inserção de barbatanas de aço e ilhoses de metal. Foi a partir destas mudanças que surgiu o tight lacing, ou laço apertado.

FOTO 2: REVISTA ELLE / Foto: Nicole Heiniger Styling: Marcell Maia e Tony Müller.

O tight lacing é um tipo de espartilho usado na era Vitoriana. Possui estruturas muito rígidas com um fecho frontal e amarrações nas costas que moldam o corpo em forma de ampulheta. Este tipo de espartilho virou moda depois que a rainha Vitória da Inglaterra, que se preocupava com a estética e tinha um corpo mais robusto, de acordo com os padrões de beleza da época, começou a usá-lo. “No século XIX ter a cintura delgada se tornou um símbolo de elegância e é certo que todas as mulheres da época queriam tê-la”, comenta Marita.

O espartilho já teve outros nomes como bodice e stays. A peça passou por várias transformações na forma, estrutura, material e acabamento. “Sou apaixonada por toda a história da corseteria e underwear. Me inspiro nos suportes e aros usados para formatar a indumentária, amo transitar por tempos remotos e trazê-los de uma forma nova para o agora. Este é meu universo”, revela a estilista.

Marita desenha corsets e corselets. O primeiro tem uma estrutura mais rígida e definida, sua função é modelar e formatar o corpo. Já o segundo tem estruturas mais leves que modelam as formas do corpo com mais suavidade, por isso são comumente ligados a lingeries. O corselet pode ser considerado uma evolução do corset, já que surge apenas no século XX, depois da primeira Guerra Mundial, sem estruturas tão rígidas para dar mais conforto às mulheres que começam a sair de casa para trabalhar. Por isso a história dos dois remete ao feminismo, sem nunca deixar de lado a feminilidade.

Os modelos são feitos em seu atelier, localizado em São Paulo. Possuem inspiração histórica e muita pesquisa, mas são adaptados ao corpo da mulher brasileira. Todos os materiais podem ser usados na confecção das peças. Do couro à seda, do zibeline ao PVC, tudo é permitido. Podem se tornar acessórios glamorosos, assim como uma bolsa, um colar, uma echarpe, já que sempre será o diferencial do look. São cada vez mais confortáveis e usados sem apertar, apenas para modelar a silhueta.

Podem ser usados durante o dia sob camisas, embaixo de casacos e jaquetas, como segunda pele de blusas e t-shirts e até de vestidos. Podem ser de jeans, algodão e com estampas variadas. Para usar à noite são mais trabalhados, com mais detalhes e compõem um look perfeito de festa com materiais mais sofisticados. Existem pelo menos duas variações estéticas do corset: o overbust, acima do busto, e o underbust, abaixo do busto e que se assemelha a um cinturão largo. Estes são ideais para o dia.

FOTO 3: WHAT ABOUT MAG – ABRIL 2014 LEA T – CORSET E GUIRDLE OBJETO DE VESTIR / Foto: Jacques Dequeker | Styling: Carol Roquete.

Os corsets são delicados, exigem técnicas na elaboração e não aceitam ajustes e reformas, é necessário que a peça seja feita nas medidas ideais desde o início da confecção. O tempo de produção varia muito dependendo do trabalho a ser realizado. Um corset pode levar horas ou até dias para ficar pronto. A única exigência é que seja preciso e bem moldado. “Gosto do desafio e tudo pode acontecer, sempre estou conectada na alta costura feita à mão. Um corset básico, de luxo ou não, com estruturas mais leves  demora um terço do  tempo  necessário para se fazer um corset tight lacing, com estruturas de aço e amarrações. Este é o caminho para se conseguir um corset de qualidade”.

Cada mulher tem um tipo de corpo e isso não pode ser ignorado. Existem padrões que são alterados de acordo com as medidas das clientes. Mas todas podem e devem usar o corset, a peça só precisa ser adequada à estrutura corporal, idade e ocasião. Até os tamanhos plus size ficam fabulosos se bem elaborados e feitos rigorosamente de acordo com as medidas. Assim como o corpo, o estilo de cada uma também deve ser respeitado. Por isso a importância da escolha dos detalhes, como o decote, padronagem, tipo de fechamento etc. Diferentemente de quando surgiu, hoje o corset não possui mais o papel de apertar e moldar o corpo. “Vivemos em tempos democráticos e a moda existe para libertar e não para oprimir”, ressalta Marita.  

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FOTO 4: REVISTA VOGUE / Foto: Ellen Von Unwert | Stylist :Yasmin Sterea.

DESIGN – MARITA DE DIRCEU

Mas Marita não circula só pela moda. Participou da Design Weekend 2015 com a Luminária Corset. A criação da peça foi um desdobramento natural do trabalho em corseteria. A ideia surgiu do convite do designer Marcelo Bicudo, da MaverickMedia.

A peça foi lançada em parceria com a marca Dominici em 2010. “Para projetá-la me inspirei em um corset Eduardiano, isto é, um corset de 1903, no auge da Belle Époque. As mulheres ainda usavam um corset todo estruturado porém vislumbravam tempos novos e modernos que ainda estavam por vir. Daí a Luminária Corset ter um design mais despojado e clean,  e não rebuscado como o corset inspirador”. A cúpula da luminária é feita com técnicas de alta costura e os materiais usados são os mesmo de um corset. A peça veste a base de aço inox lixado a mão como um corset veste o corpo, e um zíper exerce esta função.

“Como designer de moda expert em corseteria venho ao longo dos anos pesquisando e estudando lingerie e os suportes das roupas antigas. O fato de ser engenheira me proporciona instrumentos que me permitem trabalhar este conceito do antigo e trazê-lo para o novo e o agora”. Como uma artista nunca para e novos projetos sempre surgem, no momento Marita trabalha em um projeto paralelo conceitual couture chamado “Objeto de Vestir”, um diálogo entre moda e design, onde a peça vestida no corpo é roupa e fora dele é objeto.

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Comentários

lilianassif disse em 13/02/2016

Acompanho o trabalho desta magnifica estilista e estudiosa de arte,direcionando o seu olhar clinico para a História da Arte e mais precisamente a moda ao longo da Historia, e a admiro pela ousadia inovadora na arte de vestir o corpo,objetos e a Alma...Magnífica...

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